Palhaços também choram

Apagaram-se as luzes do picadeiro. O palco que dantes aspirava e inspirava risos de súbito modo jaz ao silêncio da solidão.
A grande tenda criada para doar alegria, se sente fria ao cair da noite, ao findar de outro dia, quando aplausos, sensações, humor e crianças dormem, quando o artista se vê romper a madruga sozinho, no obscuro.
O raiar do sol traz apenas outra dor, a de ter que ser o personagem, o mágico, a “felicidade”. A dor de ter que nascer a cada novo espetáculo e de se vê morrer após o fim deste. Após as cortinas encerrarem a alegre e solitária dramaturgia.
E é no exílio… Perdoe-me! Melhor, no camarote, que as manchas surgem, o borrão, a tinta, a máscara, é quando o artista lava o rosto nas próprias lágrimas e o espelho parece ofender, dizer, falar…
Ofender, dizer, falar. Tudo o que artista deseja é tal liberdade, isso mesmo, ele quer brigar, xingar, gritar, gritar… Ele quer se ver sozinho, mas casado de estar sozinho do mundo, já não mais deseja a solidão, ele quer apenas estar sozinho de si mesmo, liberta-se de seu personagem, desprender-se, esvaziar-se, gritar, gritar…
Ah! E como deve ser traumático sorrir, quando se precisa chorar, divertir, quando se quer prantear, abraçar, quando não mais se sabe o prazer de amar.
Ah…
Mas amanhã as luzes do picadeiro acenderão novamente, todos virão, de todos os quantos, assistirão ao espetáculo do artista. Então, cabe a ele vestir seu terno colorido, sua peruca colorida e pintar o rosto de branco, vermelho, palhaço… Fingir que essa noite foi um surto, um acaso, uma ilusão, e que não sente a dor de ser um personagem, de ter que ao invés de viver a vida, interpretar.
Agosto 5, 2009 at 11:50 am
Pô, muito bom mesmo, realmente, infelizmente temos que ocultar aquilo que de fato sentimos, interpretando uma falsa realidade, pois é duro ter que sorrir no momento que mais deveriamos chorar, e chorar no momento de sorrir, muito bom seu texto!
Está escrevendo bem, bem produzido!
Tu é bom, e se veja bom, não interprete-se como os outros lhe interpreta, essa é a hora de firmarmos uma identidade em todas as áreas, chapa vc é meu parceirão!
tamojunto!
paz!
Agosto 6, 2009 at 8:26 pm
Valeu caro amigo!
Sinto-me agradecido e lisonjeado, em receber elogios de um escritor talentoso como você.
Grato!
Agosto 11, 2009 at 4:20 pm
É, e quantos de nós não somos palhaços,? sorrimos quando queremos chorar, e ao fim de uma noite terrivel, a unica coisa que nos resta é nos preparar para mais um espetaculo. Da vida real.
Agosto 11, 2009 at 5:29 pm
É por isso que tanto gosto da analogia e da metáfora do palhaço. E concordo com você, muitos de nós temos sido palhaços… Se não todos. Temos um escondido dentro de nós.
Priscila,
Muito obrigado!