Palhaços Também Choram (Reescrito)

Palhaços também choram

Apagaram-se as luzes. O sol curva-se a lua dando espaço aos luminares. O palco que dantes aspirava e inspirava risos insolitamente engolfa no alarmante silêncio. A tenda grandiosa criada para doar alegria, subitamente se esfria no crepúsculo, ao findar de outro dia, quando aplausos, sensações, humor e crianças dormem, é quando o artista rompe a alvorada, isolado no obscuro.

O raiar acarreta outro amargor. Ser o personagem, o mágico, a felicidade. A aflição de reinventar um Eu a cada novo espetáculo e de sucumbir após o encerramento, diante das cortinas que indicam o término da hilária e solitária dramaturgia.

É no exílio. Perdoe-me! No camarote. Que as manchas surgem. O borrão, a tinta, a máscara, o artista se purga em lágrimas e o espelho parece ofender, dizer, falar… Ofender, dizer, falar! Seu único desejo é tal liberdade, a simples humanidade de poder brigar, falar mal, gritar, gritar! Exausto dessa solidão mundana, reza estar sozinho de si mesmo, libertar-se do personagem, desprender-se, esvaziar-se, GRITAR, GRITAR!

Ah! Quão traumático é sorrir quando se precisa chorar, divertir quando se quer prantear, abraçar quando não mais goza o prazer de amar.

Contudo, amanhã as chamas do picadeiro serão ateadas novamente, todos virão de todos os quantos e assistirão ao espetáculo do artista. Cabe ao itinerante vestir o surrado “uniforme” colorido, a peruca, o nariz, o sapato… E pintar o rosto de branco, vermelho, palhaço… Fantasiar que a noite foi um surto, um acaso, uma alucinação, que não sente dor dos artistas de ao invés de viver… Interpretar!

Velho Marujo

E Nem Viu o Tempo Passar…

Lá estavas…

Disperso, entorpecido

Em meio às vísceras de sua puerícia

Tão marcantes em seus versos.

Embevecido pela primavera

Deveras enleado observara

O despencar das flores.

Verazmente envanecido

Por utópicas, ilógicas…

Amargo é o sabor das coisas palpáveis.

Pés que tocam o solo

Causam-lhe repugnância

Ânsia! Regurgita a realidade.

Seus decênios mal gozados

Seus anseios exauridos

Nos balcões fétidos da cidade.

E estes ponteiros incansáveis

Em intermináveis ciclos

Em suas andanças…

Não foi adulto

Não foi criança

Nem se aventurou na dança!

Velho Marujo

Invejosas Lamúrias de um Conservador

Esses invólucros modernistas

Quão latentes seus ideais sórdidos

Comumente oportunistas!

Anarquistas insolúveis

Repugnantes suas mistas

De idéias infortuneis

Tal qual modo suas cristas.

Tal astúcia hiperbulosa

Desonrosa e simplista

Nome-eis a dita arte

Linguagem populista.

Menosprezeis a cadência

A métrica e a poesia

Codifiqueis suas indolências

Como satânicas liturgias.

Fanáticos por práticas

Libertárias e casuais

Que embaúlam mentes sádicas

Com aventais intelectuais.

Mas, se pareço indignado

Perdoe-me por este parecer

No fundo conservo-me alheio

Por não ter a graça de ser.

Velho Marujo

Há Quem Procure…

Há quem procure a felicidade em outro alguém. Há quem procure alguém para ser feliz. Há quem imagine a solidão como companheira ideal. Há quem procure o calor de estar junto e outros tantos que apenas buscam estarem sozinhos e livres da “necessidade” de ter alguém.

E “ter alguém” parece um termo tão mesquinho. Pois ter implica em possuir algo e se procuramos ter, buscamos a satisfação pessoal, e tal pensamento é deveras egoísta. Estar junto nada tem haver com ter, mas em doar-se. Quem busca possuir deseja apenas o que é de interesse próprio. Não existe o outro, apenas o Eu.

O comum entre tantas disparidades é que procuramos alguém. Independente do lugar, do tempo, do clima, da causa… A verdade é que procuramos. E procurar é uma ação nobre e humana, entretanto, encontrar é como duas trilhas diferentes que se cruzam, caminhos largos e opostos que se unificam e se estreitam, e por fim, na síntese surge um enredo feito de milhares de palavras referentes a dois livros que passam a ser o resumo de uma única história.

Ainda existe a questão do complemento. A tal “cara metade” a “alma gêmea”. O conceito é válido, a prática é que distorce a idéia. Será que esta eterna busca não é meramente o anseio de saciar nossas vaidades, nossos sentimentos, nossas necessidades e interesses? Quando pensamos em alguém, pensamos na possibilidade de agradar ou de ser agradado? Pensamos em doar eu em receber? Será que esse tal sentimento é como de uma esponja que absorve todo liquido ao redor, mas para que venha a liberá-lo é necessária a força, espremer…? O que procuramos é uma válvula de escape? Será apenas um objeto pelo qual aliviaremos nossas tensões? Será que esta obsessão é tamanha que não mais importa o que a outra pessoa sente, se quer ou não estar, mas o simples fato de permanecer, mesmo que só de corpo presente, já satisfaz nosso ego? Tanto faz querer ficar conosco ou não, apenas que esteja por perto? Mas e se resolvermos liberar ao invés de reter? Será que a livre escolha de estar não é melhor que o peso da obrigação?

E de repente tudo parece fazer sentido!

A presença da pessoa amada, aquilo que ambos sentem, o planejamento de construir algo em comum e de mutuo interesse, a satisfação de perceber o crescimento individual e conjunto, a felicidade de estabelecerem um novo padrão no qual decidiram desenvolverem suas vidas em parceria. Será que ao contrário de “ter” deveríamos procurar estar com alguém? Ou ainda mais, será que além de meramente estar, o melhor é caminhar ao lado? Será que este pensamento não é mais honesto e contributivo?

Mas, com calma! Não estamos a falar de uma ciência lógica, não cobremos demais, não idealizemos demais, ponderemos o fato de que errar não significa imperfeição e que método da tentativa não inclui apenas acertos.

Errar é preciso! Mas, não erremos por errar. O ideal é a cada queda entender o motivo, e após a compreensão não tornar mais a errar. Pelo menos não pelo mesmo motivo!

E por favor, não confunda! Não há nada de errado, apenas precisamos saber quão honestos e dispostos estamos a doar e não apenas reter. E o mais importante, que todas as coisas têm um tempo determinado para os que vivem a baixo do sol. Não há necessidade de fazer desta busca a fonte, bilhões de pessoas nos aguardam para ver o que de melhor temos para mostrar. Precisamos viajar e conhecer gente, trabalhar, estudar, crescer, rir… Nos socializar. Precisamos usar nossa energia vital para produzirmos e não meramente viver a procura de algo ou alguém. Tudo que tiver que ser, será, quando for a hora! Basta de infantilidades e paranoias. Se encarregue de viver. As demais possibilidades a ordem natural das coisas trará. Alimente pensamentos bons acerca de si mesmo, viva você, deixe de viver os outros, seja apaixonado pelo amanhecer e amante do por do sol. As melhores histórias partiram do nada e do nada se criou o mundo. 

Eu, o Velho Marujo. Tenho aprendido tais coisas, não por ser sábio, pelo contrário, no método da tentativa deveras exagerei na permissão de errar. E dentre aqueles que buscam ou buscaram por egoísmo, percebi que era o egoísta-mor, o principal dos mesquinhos, e que minha pequenez de espírito ultrapassou o permitido. Fiz-me vitima quando por vezes era o vilão. Mas, acreditem, aprendi! Cá estou. Porém, sem ideais intangíveis, inatingíveis ou sonhos mirabolantes, sem estar a procura do amor perfeito, o par perfeito, mas da cumplicidade perfeita,  já que perfeição é dadiva dos deuses e de divino nada temos. Pés no chão! Aprendi que existem sete mares, mas não preciso conhecer a todos ao mesmo tempo. Vamos navegar! Mas agora, um mar por vez!

Velho Marujo

A Comédia da Vida Circense!

Eis que todos estavam presentes…

…No camarim, Ele aguardava a reestréia, esperava ansiosamente a reação da platéia, imaginava situações: o expressar das faces, das linguagens corporais, as gargalhadas, os risos, as vaias, os aplausos, as lágrimas… Qual seria a aceitação do público? Sentia-se único, desprovido de imunidade, com o peito dilatado e escancarado, ousava a encarar seu rosto nu, e desta vez, não haveria maquiagem, muito menos a velha peruca, o nariz vermelho e o “uniforme” debochado e extravagante que o acompanhara nos últimos anos. Em sua psique cabia apenas uma palavra. – Oportunidade. A expectativa de reinar nos palcos da vida, outra vez!

Inquieto. Parecia prever o desfecho, tremia, sentia a saliva faltar na boca, a garganta seca implorava por algo para saciá – la,  neste momento, lembrou-se dos dias patéticos e depressivos, quais vivera insanamente… Consumia e experimentava de tudo, não necessariamente em uma ordem, até por que no caos em que se afundara restava meramente, desordem e desilusão. Transpirava frio, o isolamento abafado do pequeno metro quadro onde sozinho, preparava-se para o seu derradeiro espetáculo, não era capaz de aquecê-lo, por fora, um homem seguro e amigavelmente caloroso, por dentro, uma criança assustada, que tremia como quem treme diante o frio do ártico. Pensou em recuar, disfarçar que nunca houve disfarce algum, que a tinta no rosto apenas cobria os detalhes de sua face, não o seu real personagem. Mas, algo o incomodava.

Alguns dias antes…

O verde do parque parecia reluzente, a vida parecia mais quente, Ele, acordara naquele dia como em todos os outros antes daquele, levantara, atordoado, cansado e sem expressão… Por anos, suas noites estavam distantes de serem momentos de descanso, trazia dentro de si muitas faces, e para cada uma delas um pesadelo diferente. Suas noites eram intermináveis.  O dia para Ele era apenas uma questão física, pois no intimo de seu espírito, jazia nas trevas da solidão, nascia a cada amanhecer, e velava a sua morte quando entardecia. E não poderia ser de outro modo. Ele vivia uma farsa, na tentativa frustrada de fantasiar a vida, confundiu a pessoa com o personagem. E este foi quase o seu fim…

Entretanto, aquele dia, prometia. Após o banho, trajou seu traje mais descompromissado, desejava estar a vontade, livre de empecilhos e condições, queria, como poeta que era, vivenciar o tal Carpe Diem. E assim, saiu. Bermuda, camiseta e tênis. No seu estilo mais simples. Ah! Mal sabia Ele quão complexas ficariam as coisas daquele dia em diante.

Ela. Jovem, linda e inteligente! Poucos dias antes, Ele, quase estragara tudo. Ansioso e exagerado errara, e confundira amizade com desejo. No entanto, lá estavam. O caminho até ali fora exageradamente longo, subiram, desceram, dobraram esquinas, subiram e tornaram a descer… Ela, cansada, disfarçava o suor que escorria pelo rosto. Ele forçava manter a postura, afinal, não poderia revelar também estar cansado. Ao chegarem à entrada. Ela, solta a piada. Disse que se tivessem ido até ali para andarem, o passeio já teria obtido seu propósito. Ele, levemente sem jeito, sorriu.  As horas que seguiriam, guardariam inesquecíveis alegrias… Beijos, abraços, sorrisos e afagos… Ambos, confusos, imaginavam se aquele dia não seria um dejavu ou algo assim, algo que já acontecera em outras vidas, pois, após alguns minutos de conversa e olhares, pareciam se conhecerem a anos…

A história continuou… Nas semanas que se sucederiam, conversariam mais, sorririam mais, e mais e mais se sentiriam como quem se sente ao encontrar a parte perdida.

Foi então, que Ela o convidou, e não poderia ter acertado melhor na escolha, o local, um tipo de “Casa dos Artistas”, uma espécie de retiro para músicos alternativos, no qual senhoras, senhores e jovens de requintado gosto musical, freqüentam na intenção de ouvir música, se divertir, dançar, beber, namorar, e no caso deles, se reencontrar.

Aquela noite mudaria todo o contexto da história…

Ele, acostumado a mascaras, fantasias e disfarces. Decide ser Ele mesmo. Ela, apenas foi Ela mesma. E a conversa começara extremamente aberta, tão que assustou seus interlocutores. Ele, logo escancarou, e como prometera, revelara outro personagem, mas que desta vez, não era mais um simples personagem, era Ele mesmo. Ela, o olhava. Pasma, admirava e prestava atenção em cada palavra. Ele, depois descobriria que tudo o que havia dito, fora anotado por Ela. E que Ela, o cobraria dias depois. – Ah! Se toda cobrança fosse assim.

Ela, naquela noite, prometera revelar para Ele o seu próprio Eu lírico… Não deu tempo!

Eis que todos estavam presentes…

…No camarim, Ele aguardava a reestréia, esperava ansiosamente a reação da platéia, imaginava situações: o expressar das faces, das linguagens corporais, as gargalhadas, os risos, as vaias, os aplausos, as lágrimas… Qual seria a aceitação do público? Sentia-se único, desprovido de imunidade, com o peito dilatado e escancarado, ousava a encarar seu rosto nu, e desta vez, não haveria maquiagem, muito menos a velha peruca, o nariz vermelho e o “uniforme” debochado e extravagante que o acompanhara nos últimos anos. Em sua psique cabia apenas uma palavra. – Oportunidade. A expectativa de reinar nos palcos da vida, outra vez!

O mestre de cerimônia do espetáculo o chama. Chegara a tão esperada hora. Agora, ou era o medo de ser feliz ou a coragem de viver a felicidade. Com quem sonha, destemidamente, se levanta, se direciona até a porta, enquanto caminha pelo corredor de acesso ao palco principal assiste as pessoas o olharem assustadas, como que se não o reconhecessem, como que se não entendessem, como que se não acreditassem no que viam.

Enfim, a última escada que dará entrada ao grande palco, Ele sabe, que depois que começar a subir aqueles degraus, nunca mais poderá voltar para trás… Ele entra no palco.

Luzes, câmeras, ação!

O público que ansiosamente esperava pelo espetáculo, desaba em decepção quando o vê:

- O que é isso? Só pode ser uma piada de muito mau gosto. Um palhaço, sem maquiagem, fantasias, sem mascarás?

Por instantes, a platéia do teatro o vaia, sobram ofensas, tomates e palavrões. Após alguns minutos de revolta e euforia, a platéia parece se cansar, afinal, o homem que tanto castigavam ao menos esboça reações.

 Foi então, que um silêncio pavoroso caiu sobre a multidão, enchendo todo o espaço de um clima de tensão e expectativa. Assim, imerso nesse ambiente de extrema confusão. Ele começa a recitar um poema escrito por Ele mesmo:

Aprontei-me
vesti o fino terno para assistir
me fiz de espetáculo, aprontei-me
mas as portas do teatro desisti.

Tirei o fino traje
me vesti de mim mesmo
me fiz de espetáculo, ultrajei-me
cansei de vestir-me a esmo.

Cai ás máscaras do palhaço
Charles Chaplin, olhou-se no espelho
os risos findaram-se, as luzes
no lugar do nariz, os olhos vermelhos.

Fiz-me de espetáculo
ao vestir meu traje feio
ao apresentar-me como um todo
quando todos viam um meio.

Aprontei-me
para assistir minha história
bem-vindo ao meu espetáculo
que as vaias sejam a minha glória.

Silêncio. Os segundos que seguiriam, seriam eternos e sombrios. Nada de aplausos, risos, lágrimas, criticas ou elogios… Foi então, que logo a frente do palco, uma senhora de cabelos grisalhos, põem-se em pé, e com as mesmas mãos calejadas e cansadas pela dura vida, começa, com o pouco vigor que ainda restava-a, a aplaudir. Assim, lentamente, uma por uma, pessoas se põem em pé, e com lagrimas nos olhos, as vaias e ofensas, se tornam sorrisos e admiração. Isto, por que diante delas, jazia um personagem, e nascia um novo homem. Alguém que não se sentiria uma exceção do todo, mas sim, o próprio todo. Não mais assistiria e julgaria a humanidade de dentro de sua redoma de vidro, mas que passaria a fazer parte da história, como apenas mais um dentre tantos bilhões de errantes. Um homem que deixaria de conjugar seus erros no plural, mas que assumiria a verdade singular de suas escolhas.

Emocionado, Ele timidamente agradece, não estava acostumado a ser Ele mesmo, e não sabia o que o mundo pensaria sobre, mas em rápidos minutos, percebeu quanto tempo havia perdido, sendo outrem, quando poderia ter sido verdadeiro.

Perplexo, volta para o camarim, ao adentrar a pequena sala, um susto! Sentada na empoeirada cadeira estava Ela, Ele em uma súbita reação a abraça. Risos e lágrimas. - O beijo a seguir seria o mais longo de todos! Ele descobriria que Ela também vivia seu próprio espetáculo, e que também se sentia ilhada no picadeiro, e que no fundo, ambos, guardada as disparidades, eram apenas dois palhaços vivendo a comedia da vida circense. Escondendo suas dores do mundo, mas não de si mesmos.

Após uma sensação de êxtase e felicidade, Ele a olha nos olhos, retira um papel de pão, amassado, que guardara no bolso, parecia estar ali há alguns dias. Assim, segurando fortemente as suas mãos, Ele começa a recitar alguns versos:

Quando a luz apaga e você vem

Apaga meus pensamentos

Seu toque, meus pensamentos

Seu ritmo, meus batimentos.

Alarga meu mundo

Dilata meu coração

Desvenda as linhas do mapa

As escalas da canção.

Marca meus passos

O compasso do seu sacode

Os fios dos seus cabelos

Segredo dos meus acordes.

Meu samba na ladeira

Meu chá de erva cidreira.

Minha brasileira

Aqui dentro é a primeira.

Meus dedos tocam

A sua nota mais alta

Se meus ouvidos não escutam

A sua voz, sinto falta!

A única a entender

O que quero dizer,

Quero ter você,

Quero ser você!

Quero tocar você

E sentir o teu prazer,

Você é a única capaz

De me satisfazer.

Pode o céu desabar

Ninguém mais irá tomar

O teu lugar na sala!

Por tempos, muitos afirmavam que seu olhar, por vezes, deixava escapar sua verdadeira alma, que por detrás da carapuça de palhaço, existia alguém cuja humanidade era desconhecida. Outra identidade. Outra personalidade. A outra pessoa por detrás do ator. Hoje, Ele se sente Ele mesmo, e vive os dias como quem vive um sonho, e descobriu que não existe nada de errado, em sonhar acordado, mas que errante mesmo, é aquele que dorme diante do pesadelo de uma falsa existência.

Velho Marujo

O Louco

Deus! Conserve-me assim, imprevisível. Peço-lhe, meu Pai, que possas permitir que viva sempre como um desvairado, que enxerguem-me como um louco, que pretendam queimar-me na fogueira da incompreensão, e façam votos de perseguirem-me por todo o tempo enquanto insistir em respirar.

Insanamente, suplico pela a masmorra! Que os “normais” clamem e reivindiquem os restos mortais de meu corpo como prova física do sacrifício. Que meus pedaços, espalhados pelas vias públicas do preconceito, exemplifiquem o crepúsculo intenso reservado a todos que comentem as mesmas mazelas que cometi. Não peço-lhe que sejam piedosos comigo, mas desejo o fogo, a espada, o medo, o perigo. E quando no topo do monte, olhar meus ditos amigos, a virarem suas faces como sinal de vergonha, e presenciar parentes a resmungarem protestos, por ter sujado o sobrenome da família, ao receber o escarro em meu rosto, daqueles que prometiam aliança incondicional e eterna. Neste dia, serei o doido mais varrido que existiu, entretanto, o homem mais feliz que a fútil sociedade jamais deslumbrou existir.

- Vamos, vermes invejosos e traidores, queimem-me! Apaguem da história meus vestígios, arquivem meus escritos, tranquem-os em baús, afundem-os no profundo mar, limpem da mente dos que leram minhas subversões a memória da minha existência, que todos esqueçam, que todos subestimem, que todos estimem e torçam pelo colapso da minha psique. Vão! Façam  o que lhes é devido, cumpram sua missão, matem-me! Evitem que outros tantos se subvertam, e se corrompam com as palavras do “bruxo”. Mas, saibam que a fogueira jamais queimará meu intelecto, continuarei psicológicamente vivo nas lembranças de meus seguidores. Pois, mata-se o corpo. Permanece as idéias!

Não. Não peço-lhe que me respeitem, que estendam tapetes, que reconheçam meus escritos ou aplaudam meus discursos. Não cobro aceitação, compreensão, reconhecimento. Quero apenas que continuem a me desprezar, a esculachar-me, para dedicarem o pouquíssimo tempo que nos resta para me condenarem a forca. Quero as vaias, os tomates, os criticos. Quero minha cara estampada nos jornais, como o amontinador, o baderneiro, comunista, falador. Quero ser perseguido como perseguiram a Buarque, Veloso  e afins. Desejo o ilhamento, o esconderijo, o underground. E quando me perguntarem o por que de tanta clausura, responderei:

- Se ser escorraçado, amaldiçoado e  morto como um louco é o preço e a recompensa de um livre pensador. Se assim o for. Mate-me, por favor!

Velho Marujo

A Nova Face da Mesmice

Sinto que estou ficando chato. Isto, velhaco, enferrujado, carente de senso de humor, insensível. Sinto que não escrevo como antes, algo entravou na minha escrita, estou previsível, meus textos insuportavelmente lógicos, minha poesia extremamente comum.

Sinto meus pensamentos atrofiados, minha capacidade de inventar temas, ultrapassada, nem ao menos minhas composições se salvam, até a música parece tão complexa, ao o aproximar do crepúsculo meu “talento” se dizima, em partes, sou homem fragmentado e retalhado pelo caos cotidiano, a cidade tem me feito mal, talvez seja este ar impuro, o transito, o barulho… Ou, talvez seja apenas eu mesmo, que permaneço sempre o mesmo, ao invés de renovar.

E busco insaciavelmente por renovo, anseio novidades, um assunto diferente, uma discussão inédita, cansei de ser repetitivo como a Sessão da Tarde, não há nada de novo no Novo Mundo, esta tal nova ordem mundial de longe parece outro velho conceito conspiratório, o sobe e desce da bolsa permanece na eterna degola, a desigualdade continua sendo uma questão social, os políticos ainda roubam, os homens traem, as mulheres mentem, e a humanidade ainda insiste em criar um método eficaz para o cataclismo global, em suma, nada há para se contar, tudo o que é, já foi, e tudo o que já foi outra vez há de vir.

Sabe, deve ser por isso que me sinto assim, como quem nada tem para dizer, pois parece que tudo o que disse, já foi dito por alguém, e que no fundo todo mundo sente o mesmo.  É a nova face da mesmice, um novo conceito de reencarnação, no qual até o que no presente escrevemos é velho, tudo já foi escrito por alguém ou por nós mesmos em outra vida, tudo o que acabo de escrever já estava escrito, apenas vivo um momento de djavú literário, em mim não há talento, apenas psicográfico as lamurias e as repetições de outrem. Mas, se tal coisa for assim, qual a graça da vida? E a imprevisibilidade? E o acaso? Não, prefiro acreditar que uma novidade existe e que, infelizmente ainda não raiou que, há algo novo para ser feito e que, o livre-arbítrio continua sendo a base fundamental para a liberdade.

Há uma estória que ninguém nunca contou, há um livro que ninguém nunca leu, há uma poesia que ainda jamais foi escrita. Ainda há novidades, basta-nos inovar!

Velho Marujo

Escrevendo…

Olá caros amigos!

Deparei-me devaneando (pra variar) sobre alguns porquês, e imerso em uma áurea de nostalgia e reflexão, perguntei-me, o porquê de manter este vicio insaciável que é o de escrever.

Não me considero (na verdade sei que não sou) um escritor excepcional e talentoso, sinceramente, estou longe de ser tarjado como poeta que detém o dom, mas desde que comecei este blog, recebi inúmeros elogios de pessoas com um senso critico extremamente aguçado, gente que entende da arte e que escreve mil vezes melhor. Ora, uma coisa é o “perna de pau” do bairro dizer que jogo bem futebol, outra, é o Pelé falar isso. No entanto, o pouco que sei, aprendi lendo outros que escrevem muito mais do que eu, e que dominam muito mais está maravilhosa arte, e alguns deles conheci através deste blog.

Nessa esfera virtual, conheci pessoas que apesar da ausência de convivo, as considero, gente que aprendi a admirar através de suas expressões, pensamentos, idéias, textos, poemas… A estes, escrevo este legado, não me preocupo com multidões, sinto-me completo e feliz com estes “poucos” que gostam e lêem os meus textos. A vocês digo que escrever é muitas vezes para mim, exorcizar a alma, no inicio principalmente, resumiu-se nisso. Hoje, escrever é exorcizar a alma e libertar outras tantas cativas, esta ferramenta tão simples, nos dá o poder de quebrar os grilhões que aprisionam mentes cansadas e exaustas de pensar, alienados e súditos.  Nossas pequenas vozes separadas quando se juntam se tornam gigantescas, tamanho o barulho que podemos fazer.

O que quero dizer (ou que pelo menos tento) é que amo escrever, amo ler, e amo estar por aqui, neste recinto, escrevendo muitas vezes cartas destinadas a ninguém, mas que mesmo sem querer, sempre acabam falando a alma de alguém.

Velho Marujo

Dance

Viva a vida com dança, baile aos pés daquele que lhe formou, dance… Em meio às guerras e lastimas de um mundo sombrio, ilumine-o com tua dança, ilumina-te a si mesmo. Dançar, assim como cantar, são verdadeiros luminares da alma, pessoas que são capazes de ainda dançarem neste planeta em constante decadência, são capazes de provocar o inestimável, alegrar corações, encantar olhares antes perdidos.

Encontra-te a si mesmo.

A cada movimento, a cada esticar de braços, a cada salto… Leve a vida na leveza de teus passos, e passeie por ela… Tudo pode ser mais vivo e belo se as pessoas souberem dançar e cantar em meio à guerra. Quão linda é a vida daqueles que dançam, cantam e que vivem o segundo, os minutos, as horas, pois os dias já não cabem mais neste contexto, o futuro é um mero esperar, é o bocejar de uma criança, longo, longo… Parece eterno para quem de longe admira.

Dançar, espreguiçar-se, estique-se…

Teus ossos não durarão mais um milênio, teu corpo irá se findar antes da consumação dos séculos, tua vida ficará mais lenta, teu andar ficará mais lento e os dentes cada vez mais amarelos, por isso, dance… Dance em tua mocidade, na tua adulta meninice, por mais rugas que o tempo tenha lhe premiado, a criança que habita em ti jamais envelhecerá, a alma é a eterna solidez da juventude, a vida vale este momento e este momento vale uma vida.

Sei que dirás estar velho demais para se divertir tanto assim, que nada, a maior bobeira dos homens foi ter inventado está “pratica” vida moderna, onde temos sempre a sensação de estarmos sendo vigiados, e que olhares pecaminosos nos julgarão pelos feitos impensados. Besteira. Quer saber, deixe de ser bobo, arraste os móveis da sala e dance, dance, sozinho ou acompanhado, como se está fosse tua última valsa, teu último samba, o último soul… Convide os vizinhos, faça uma festa, abrace teu amor, pois do outro do outro lado para onde todos irão, talvez não haja mais nem música, nem dança. Apenas o silêncio…

Dance!

Velho Marujo