A Comédia da Vida Circense!

Eis que todos estavam presentes…

…No camarim, Ele aguardava a reestréia, esperava ansiosamente a reação da platéia, imaginava situações: o expressar das faces, das linguagens corporais, as gargalhadas, os risos, as vaias, os aplausos, as lágrimas… Qual seria a aceitação do público? Sentia-se único, desprovido de imunidade, com o peito dilatado e escancarado, ousava a encarar seu rosto nu, e desta vez, não haveria maquiagem, muito menos a velha peruca, o nariz vermelho e o “uniforme” debochado e extravagante que o acompanhara nos últimos anos. Em sua psique cabia apenas uma palavra. – Oportunidade. A expectativa de reinar nos palcos da vida, outra vez!

Inquieto. Parecia prever o desfecho, tremia, sentia a saliva faltar na boca, a garganta seca implorava por algo para saciá – la,  neste momento, lembrou-se dos dias patéticos e depressivos, quais vivera insanamente… Consumia e experimentava de tudo, não necessariamente em uma ordem, até por que no caos em que se afundara restava meramente, desordem e desilusão. Transpirava frio, o isolamento abafado do pequeno metro quadro onde sozinho, preparava-se para o seu derradeiro espetáculo, não era capaz de aquecê-lo, por fora, um homem seguro e amigavelmente caloroso, por dentro, uma criança assustada, que tremia como quem treme diante o frio do ártico. Pensou em recuar, disfarçar que nunca houve disfarce algum, que a tinta no rosto apenas cobria os detalhes de sua face, não o seu real personagem. Mas, algo o incomodava.

Alguns dias antes…

O verde do parque parecia reluzente, a vida parecia mais quente, Ele, acordara naquele dia como em todos os outros antes daquele, levantara, atordoado, cansado e sem expressão… Por anos, suas noites estavam distantes de serem momentos de descanso, trazia dentro de si muitas faces, e para cada uma delas um pesadelo diferente. Suas noites eram intermináveis.  O dia para Ele era apenas uma questão física, pois no intimo de seu espírito, jazia nas trevas da solidão, nascia a cada amanhecer, e velava a sua morte quando entardecia. E não poderia ser de outro modo. Ele vivia uma farsa, na tentativa frustrada de fantasiar a vida, confundiu a pessoa com o personagem. E este foi quase o seu fim…

Entretanto, aquele dia, prometia. Após o banho, trajou seu traje mais descompromissado, desejava estar a vontade, livre de empecilhos e condições, queria, como poeta que era, vivenciar o tal Carpe Diem. E assim, saiu. Bermuda, camiseta e tênis. No seu estilo mais simples. Ah! Mal sabia Ele quão complexas ficariam as coisas daquele dia em diante.

Ela. Jovem, linda e inteligente! Poucos dias antes, Ele, quase estragara tudo. Ansioso e exagerado errara, e confundira amizade com desejo. No entanto, lá estavam. O caminho até ali fora exageradamente longo, subiram, desceram, dobraram esquinas, subiram e tornaram a descer… Ela, cansada, disfarçava o suor que escorria pelo rosto. Ele forçava manter a postura, afinal, não poderia revelar também estar cansado. Ao chegarem à entrada. Ela, solta a piada. Disse que se tivessem ido até ali para andarem, o passeio já teria obtido seu propósito. Ele, levemente sem jeito, sorriu.  As horas que seguiriam, guardariam inesquecíveis alegrias… Beijos, abraços, sorrisos e afagos… Ambos, confusos, imaginavam se aquele dia não seria um dejavu ou algo assim, algo que já acontecera em outras vidas, pois, após alguns minutos de conversa e olhares, pareciam se conhecerem a anos…

A história continuou… Nas semanas que se sucederiam, conversariam mais, sorririam mais, e mais e mais se sentiriam como quem se sente ao encontrar a parte perdida.

Foi então, que Ela o convidou, e não poderia ter acertado melhor na escolha, o local, um tipo de “Casa dos Artistas”, uma espécie de retiro para músicos alternativos, no qual senhoras, senhores e jovens de requintado gosto musical, freqüentam na intenção de ouvir música, se divertir, dançar, beber, namorar, e no caso deles, se reencontrar.

Aquela noite mudaria todo o contexto da história…

Ele, acostumado a mascaras, fantasias e disfarces. Decide ser Ele mesmo. Ela, apenas foi Ela mesma. E a conversa começara extremamente aberta, tão que assustou seus interlocutores. Ele, logo escancarou, e como prometera, revelara outro personagem, mas que desta vez, não era mais um simples personagem, era Ele mesmo. Ela, o olhava. Pasma, admirava e prestava atenção em cada palavra. Ele, depois descobriria que tudo o que havia dito, fora anotado por Ela. E que Ela, o cobraria dias depois. – Ah! Se toda cobrança fosse assim.

Ela, naquela noite, prometera revelar para Ele o seu próprio Eu lírico… Não deu tempo!

Eis que todos estavam presentes…

…No camarim, Ele aguardava a reestréia, esperava ansiosamente a reação da platéia, imaginava situações: o expressar das faces, das linguagens corporais, as gargalhadas, os risos, as vaias, os aplausos, as lágrimas… Qual seria a aceitação do público? Sentia-se único, desprovido de imunidade, com o peito dilatado e escancarado, ousava a encarar seu rosto nu, e desta vez, não haveria maquiagem, muito menos a velha peruca, o nariz vermelho e o “uniforme” debochado e extravagante que o acompanhara nos últimos anos. Em sua psique cabia apenas uma palavra. – Oportunidade. A expectativa de reinar nos palcos da vida, outra vez!

O mestre de cerimônia do espetáculo o chama. Chegara a tão esperada hora. Agora, ou era o medo de ser feliz ou a coragem de viver a felicidade. Com quem sonha, destemidamente, se levanta, se direciona até a porta, enquanto caminha pelo corredor de acesso ao palco principal assiste as pessoas o olharem assustadas, como que se não o reconhecessem, como que se não entendessem, como que se não acreditassem no que viam.

Enfim, a última escada que dará entrada ao grande palco, Ele sabe, que depois que começar a subir aqueles degraus, nunca mais poderá voltar para trás… Ele entra no palco.

Luzes, câmeras, ação!

O público que ansiosamente esperava pelo espetáculo, desaba em decepção quando o vê:

- O que é isso? Só pode ser uma piada de muito mau gosto. Um palhaço, sem maquiagem, fantasias, sem mascarás?

Por instantes, a platéia do teatro o vaia, sobram ofensas, tomates e palavrões. Após alguns minutos de revolta e euforia, a platéia parece se cansar, afinal, o homem que tanto castigavam ao menos esboça reações.

 Foi então, que um silêncio pavoroso caiu sobre a multidão, enchendo todo o espaço de um clima de tensão e expectativa. Assim, imerso nesse ambiente de extrema confusão. Ele começa a recitar um poema escrito por Ele mesmo:

Aprontei-me
vesti o fino terno para assistir
me fiz de espetáculo, aprontei-me
mas as portas do teatro desisti.

Tirei o fino traje
me vesti de mim mesmo
me fiz de espetáculo, ultrajei-me
cansei de vestir-me a esmo.

Cai ás máscaras do palhaço
Charles Chaplin, olhou-se no espelho
os risos findaram-se, as luzes
no lugar do nariz, os olhos vermelhos.

Fiz-me de espetáculo
ao vestir meu traje feio
ao apresentar-me como um todo
quando todos viam um meio.

Aprontei-me
para assistir minha história
bem-vindo ao meu espetáculo
que as vaias sejam a minha glória.

Silêncio. Os segundos que seguiriam, seriam eternos e sombrios. Nada de aplausos, risos, lágrimas, criticas ou elogios… Foi então, que logo a frente do palco, uma senhora de cabelos grisalhos, põem-se em pé, e com as mesmas mãos calejadas e cansadas pela dura vida, começa, com o pouco vigor que ainda restava-a, a aplaudir. Assim, lentamente, uma por uma, pessoas se põem em pé, e com lagrimas nos olhos, as vaias e ofensas, se tornam sorrisos e admiração. Isto, por que diante delas, jazia um personagem, e nascia um novo homem. Alguém que não se sentiria uma exceção do todo, mas sim, o próprio todo. Não mais assistiria e julgaria a humanidade de dentro de sua redoma de vidro, mas que passaria a fazer parte da história, como apenas mais um dentre tantos bilhões de errantes. Um homem que deixaria de conjugar seus erros no plural, mas que assumiria a verdade singular de suas escolhas.

Emocionado, Ele timidamente agradece, não estava acostumado a ser Ele mesmo, e não sabia o que o mundo pensaria sobre, mas em rápidos minutos, percebeu quanto tempo havia perdido, sendo outrem, quando poderia ter sido verdadeiro.

Perplexo, volta para o camarim, ao adentrar a pequena sala, um susto! Sentada na empoeirada cadeira estava Ela, Ele em uma súbita reação a abraça. Risos e lágrimas. - O beijo a seguir seria o mais longo de todos! Ele descobriria que Ela também vivia seu próprio espetáculo, e que também se sentia ilhada no picadeiro, e que no fundo, ambos, guardada as disparidades, eram apenas dois palhaços vivendo a comedia da vida circense. Escondendo suas dores do mundo, mas não de si mesmos.

Após uma sensação de êxtase e felicidade, Ele a olha nos olhos, retira um papel de pão, amassado, que guardara no bolso, parecia estar ali há alguns dias. Assim, segurando fortemente as suas mãos, Ele começa a recitar alguns versos:

Quando a luz apaga e você vem

Apaga meus pensamentos

Seu toque, meus pensamentos

Seu ritmo, meus batimentos.

Alarga meu mundo

Dilata meu coração

Desvenda as linhas do mapa

As escalas da canção.

Marca meus passos

O compasso do seu sacode

Os fios dos seus cabelos

Segredo dos meus acordes.

Meu samba na ladeira

Meu chá de erva cidreira.

Minha brasileira

Aqui dentro é a primeira.

Meus dedos tocam

A sua nota mais alta

Se meus ouvidos não escutam

A sua voz, sinto falta!

A única a entender

O que quero dizer,

Quero ter você,

Quero ser você!

Quero tocar você

E sentir o teu prazer,

Você é a única capaz

De me satisfazer.

Pode o céu desabar

Ninguém mais irá tomar

O teu lugar na sala!

Por tempos, muitos afirmavam que seu olhar, por vezes, deixava escapar sua verdadeira alma, que por detrás da carapuça de palhaço, existia alguém cuja humanidade era desconhecida. Outra identidade. Outra personalidade. A outra pessoa por detrás do ator. Hoje, Ele se sente Ele mesmo, e vive os dias como quem vive um sonho, e descobriu que não existe nada de errado, em sonhar acordado, mas que errante mesmo, é aquele que dorme diante do pesadelo de uma falsa existência.

Velho Marujo

O Faxineiro

vassouraO macacão azul anil parecia falar… O olhar fitado no chão, a voz tremula e cansada a resmungar, mãos calejadas, pele escura, preta… A cabeça raspada não deixava transparecer os fios brancos, os pés rachados (imagino eu) calçados pelos velhos sapatos pretos, os mesmos que devem o acompanhar a tantos dias, amigos inconfidentes, seu uniforme era seu padre e o banheiro da faculdade seu confessionário.

Dia após dia o tempo está estagnado e a pressa parece não atingi-lo, seu mundo anda em vias contrárias, os ponteiros de seu relógio estão tão parados quanto os de Salvador Dali. Seus anos se vão com a mesma velocidade de seu trabalho, sua vida está limitada a aquelas paredes de azulejos brancos, seus sonhos estão reclusos e destinados a morrerem no 12° andar.

São 20h55min e ali está o homem, sentado sobre a pia de mármore cinza, debruçado por sob os ombros e proferindo palavras em tom quase inaudível, como quem está a murmurar, a declamar um discurso intimo e pessoal que se refere apenas a ele e que quase ninguém está ou estará disposto a ouvir. O cheiro de urina, misturado com os perfumes caros da classe média dão o clima de desigualdade social com um toque de monarquia. Acordar cedo e dormir tarde, o trem lotado que mais lembra os grandes cargueiros, o ser humano tratado como gado, submetido a se locomover como bichos, o navio negreiro do povo trabalhador. Tudo isso e ainda um salário de fome, que mal dá para pagar as contas e ele conta quanto custa para sobreviver nesse mundo cão. 

- Boa noite! (alguém diz)

- Boa…

Responde o homem com voz assustada, não por medo, até porque quem vive a beira da exclusão não teme nada, mas talvez por mal se lembrar da última vez que alguém o cumprimentara. Os dias passam e a vida daquele homem se confunde com a paisagem do ambiente. Tornou-se como um objeto de decoração, uma estátua, parte ilustrativa da sociedade, uma história em quadrinhos onde desenho e narrador se confundem com seus personagens.

- Papai!

Diz o filho daquele homem, irradiante por vê seu pai retornar ao lar. Ele (o homem) abraça seu filho, beija sua esposa, vive aquele momento como se fosse o último, pois amanhã o dia voltará a despontar. Coloca na mesa a mistura que comprou com dinheiro suado, feijão, arroz, ovo e bife, e dar-se por satisfeito e agradece a Deus por hoje ter além do ovo, o bife.

Toma um banho (ou melhor, uma “ducha”), e após lavar o corpo e a alma, deita-se em sua cama, reza o Pai Nosso, e pede a Deus que o dê forças para que no dia que se espera, possa cumprir novamente seu papel de chefe de família, de homem, de pai.

Velho Marujo

O menino

meninonegro

Ainda te vejo com a pipa, os joelhos sujos de barro, a roupa suja de terra vermelha, o0s cotovelos arranhados de tanto se jogar no chão.

 

Ainda vejo aquele menino, negrinho, cabelo duro, travesso, moleque, que corria pela Sebastião Martins, que descia as ribanceiras brincando de desbravar o mato, que tinha na casa de tijolos mal acabados o seu castelo, o seu fantástico mundinho de Bob.

 

Ainda te vejo nas brigas de rua, chorando, xingando, chorando de novo quando chegava em casa e apanhava de seu pai, não por ter brigado, mas por ter apanhado na rua.

 

Te vejo pedindo o primeiro beijo, o primeiro amor, a primeira dor, o primeiro corte no coração partido, a noite fora de casa, o primeiro porre de vinho, a primeira brisa, ressaca.

 

Ainda te vejo com a primeira namorada, bobo, sonhava que todo amor era eterno, que era possível sonhar mesmo estando acordado, que todas as juras eram sinceras e que toda sinceridade era retribuída da mesma forma.

 

Vejo o menino que sonhava em mudar o mundo mesmo sem nunca ter saído de seu bairro, o menino que fazia de seu sorriso a esperança que todo o adulto queria ter e que pintou a inocência com lápis Faber Castel.

 

Te vejo cabulando aula, chorando quando o seu São Paulo ganhava, chorando quando perdia, chorava quando alguém partia, chorava quando um amigo ficava pra atrás.

 

Mas o menino cresceu.

 

E hoje pouca coisa resta do menino, ele já não suja os joelhos de barro, a roupa de terra e nem se joga no chão, na verdade, o menino perdeu a aventura, a ternura, perdeu o medo de ter medo de não mais sonhar, perdeu a cor da infância e seu lápis Faber Castel insiste em sombrear a mesma cor cinza.

 

Mas alguma coisa me diz que o menino ainda está ali, o corpo cresceu, mas o espírito ainda parece empinar pipa, acho que ele apenas espera uma chance, um convite, um aceno de mão, para sonhar, amar, se sujar, se jogar, e voltar a ser feliz na sua velha infância.

 

Velho Marujo