E Nem Viu o Tempo Passar…

Lá estavas…

Disperso, entorpecido

Em meio às vísceras de sua puerícia

Tão marcantes em seus versos.

Embevecido pela primavera

Deveras enleado observara

O despencar das flores.

Verazmente envanecido

Por utópicas, ilógicas…

Amargo é o sabor das coisas palpáveis.

Pés que tocam o solo

Causam-lhe repugnância

Ânsia! Regurgita a realidade.

Seus decênios mal gozados

Seus anseios exauridos

Nos balcões fétidos da cidade.

E estes ponteiros incansáveis

Em intermináveis ciclos

Em suas andanças…

Não foi adulto

Não foi criança

Nem se aventurou na dança!

Velho Marujo

Invejosas Lamúrias de um Conservador

Esses invólucros modernistas

Quão latentes seus ideais sórdidos

Comumente oportunistas!

Anarquistas insolúveis

Repugnantes suas mistas

De idéias infortuneis

Tal qual modo suas cristas.

Tal astúcia hiperbulosa

Desonrosa e simplista

Nome-eis a dita arte

Linguagem populista.

Menosprezeis a cadência

A métrica e a poesia

Codifiqueis suas indolências

Como satânicas liturgias.

Fanáticos por práticas

Libertárias e casuais

Que embaúlam mentes sádicas

Com aventais intelectuais.

Mas, se pareço indignado

Perdoe-me por este parecer

No fundo conservo-me alheio

Por não ter a graça de ser.

Velho Marujo

A Última Carta

 

Pela derradeira vez meu sangue

Assinará os velhos papéis amarelos,

Assim que está tiver seu desfecho

Darei as traças às folhas borradas de lágrimas.

Prometo escrevê-la apenas por está vez

E queimarei as obras que tu me inspiraste,

Aquieta-te, pois teu nome não virá à luz,

Nas trevas da minha memória, ali pousará em paz.

Apenas peço, aquieta-te,

E por está última vez desfrute meus versos

Já que ao desfazer desta tarde não mais irá Lê-los.

Beberei o vinho que guardara para as núpcias

E me embriagarei de lembranças e bons momentos.

Prometo que tua boca

Não mais, nunca mais,

Tocará meus lábios

E teu corpo jamais voltará

A sentir o prazer

De estar junto ao meu.

Aquieta-te

E pense que poderia ter sido diferente

Mas, entre a gente,

Fica apenas a expectativa de um depois…

VelhoMarujo

Errante Compulsivo

Meu risonho olhar vagante

Entristece-me a pálida face,

As sementes infrutíferas

Enfim, sucumbem em solo hostil.

Fadigaram-me as andanças

Errante, em densas trevas,

Distanciei-me das veredas…

Jazi na relva.

Compulsivamente errei,

Fazem-se justos meus flagelos

Morte ao insensato errante

Morte ao príncipe fajuto

Derribem seus muros e castelos.

Afrontei a vida,

Fiz-me vergonha e impudor

Fiz-me a dor e despedida

Fiz-me louco, traidor…

Senti-me outro, degenerado,

Mal reconheci minha face em mim,

Senti-me outro, desgraçado,

Graças tenhas Deus por mim.

Perdi as vezes que errei

Mas sei que por vezes insisti

E se erro mesmo, a saber,

Já não mais há perdão…

Morri.

Velho Marujo

Donde te perdi?

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Fala-me donde te perdi, donde te deixei,

Ensina-me as veredas por donde voltarei

Perdi-me de ti, me afastei da vida em mim,

Desgarrei-me pelos pastos verdejantes

Fui ovelha rebelde por estes campos de cá.

 

Fala-me donde te perdi, donde te deixei,

Tu estavas aqui, não estais mais…

Não sinto que estais e não sei por donde foi.

 

Fostes para tão distante assim?

Fostes para donde não possa ir?

 

Tu estavas aqui, estavas aqui,

Contastes-me histórias…

Colocaste-me em teu colo

Levaste-me para passear, brincar..

 

Fala-me donde te perdi, donde te deixei,

Fala-me por tudo que sagrado é

Por tudo que respira, por tudo…

 

Não acredito que te deixei partir assim,

Estavas aqui, tão perto, dentro de mim…

Amaste-me, como outro alguém,

Jamais ousou me amar.

 

Deste-me tua vida, teu sangue,

Teu coração sangrou por mim.

 

Mas me perdi de ti, tive vergonha,

Fui filho ingrato, fui ofensa, fui rancor…

Escondi meu rosto quando te vi passar

Escondi meu rosto… Não meu pensar.

 

Tu sabias que estava ali,

Tu sabias que acabara de me mudar de ti,

Despejei-te de teu antigo abrigo,

Mandei-te se alojar em outro  abrigo.

 

Esvaziei minha casa, meu lar frio,

Desde então canções não se ouvem mais.

 

Expulsei-te de mim, fiz tuas malas,

Lancei janelas a fora, te mandei partir,

Disse aqui jamais outra morada terás

Tranquei as portas, fechei até as frestas,

Para que não pudesses entrar.

 

E esse aperto aqui no peito

Parece não mais desapertar.

 

Ironias de quem um dia, quis e te procurou,

Como fosse o primeiro a te encontrar.

Velho Marujo

Outra vez, nós

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Escrever-te-ia sobre nós

Mas nós estamos distantes

Ao avesso dos amantes

Na garganta vários nós.

 

Escrever-te-ia sobre nós

Mas sinto a foz no peito

A voz tremula causa efeito

Não mais juntos, a sós.

 

Escrever-te-ia meu sonho

E cantá-lo-ia em alto coro

Sem senso ou decoro

Seria a gente sendo nós.

 

E se voltarmos a ser nós

Recitar-te-ei meus versos

Apenas não zombe, te peço,

Se sem jeito ficar após.

Velho Marujo