O menino

meninonegro

Ainda te vejo com a pipa, os joelhos sujos de barro, a roupa suja de terra vermelha, o0s cotovelos arranhados de tanto se jogar no chão.

 

Ainda vejo aquele menino, negrinho, cabelo duro, travesso, moleque, que corria pela Sebastião Martins, que descia as ribanceiras brincando de desbravar o mato, que tinha na casa de tijolos mal acabados o seu castelo, o seu fantástico mundinho de Bob.

 

Ainda te vejo nas brigas de rua, chorando, xingando, chorando de novo quando chegava em casa e apanhava de seu pai, não por ter brigado, mas por ter apanhado na rua.

 

Te vejo pedindo o primeiro beijo, o primeiro amor, a primeira dor, o primeiro corte no coração partido, a noite fora de casa, o primeiro porre de vinho, a primeira brisa, ressaca.

 

Ainda te vejo com a primeira namorada, bobo, sonhava que todo amor era eterno, que era possível sonhar mesmo estando acordado, que todas as juras eram sinceras e que toda sinceridade era retribuída da mesma forma.

 

Vejo o menino que sonhava em mudar o mundo mesmo sem nunca ter saído de seu bairro, o menino que fazia de seu sorriso a esperança que todo o adulto queria ter e que pintou a inocência com lápis Faber Castel.

 

Te vejo cabulando aula, chorando quando o seu São Paulo ganhava, chorando quando perdia, chorava quando alguém partia, chorava quando um amigo ficava pra atrás.

 

Mas o menino cresceu.

 

E hoje pouca coisa resta do menino, ele já não suja os joelhos de barro, a roupa de terra e nem se joga no chão, na verdade, o menino perdeu a aventura, a ternura, perdeu o medo de ter medo de não mais sonhar, perdeu a cor da infância e seu lápis Faber Castel insiste em sombrear a mesma cor cinza.

 

Mas alguma coisa me diz que o menino ainda está ali, o corpo cresceu, mas o espírito ainda parece empinar pipa, acho que ele apenas espera uma chance, um convite, um aceno de mão, para sonhar, amar, se sujar, se jogar, e voltar a ser feliz na sua velha infância.

 

Velho Marujo

3 Respostas para “O menino

  1. Porra velho…

    Sem palavras! Acredito que vc escreveu a infancia de muitas pessoas ai.
    Sinto falta de todas essas coisas, chegando uma hora naum aguentar mais a pressaum cotidianan me fazendo cair e chorar.
    Como ontem e hoje. Chorei por ver meus amigos longe. Chorei por me ver longe. Vc sabe do que estou falando!
    Penso sempre em me entregar, mas do nada levanto e ando mais alguns metros.
    Algo pra mim e pra vc estah adiante!!!

    Queria ser seu amigo lado a lado, mas hj percebo que prefere andar sozinho.
    Mas se precisarn conte comigo, pois entendo sua guerra.

    Abracaum!

  2. Estava precisando de uma crônica narrativa para um trabalho de português e nao estava nem um pouco enteresada , mais essa crônica me chamou muito a atenção , parabéns! Suas crônicas sao espetaculares , divulgue-as mais! Abraços

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