Clube Não é Boteco – Por Nelson Rodrigues

nelsonLeio os jornais e observo o seguinte: — uma tendência universal para achar que os campeões do mundo devem aceitar, sim, o próprio leilão. É a filosofia do toma lá da cá, da oferta maior, do lance mais alto. Se oferecem tanto a Vavá e tanto ao clube, o negócio deve ser fechado brutalmente e com a solidariedade e o estímulo da imprensa, do rádio e da televisão. Do contrário, argumenta a maioria dos meus confrades, seria prejudicar o craque e o clube.

É, como se vê, um raciocínio monstruoso, que coloca o problema em termos estritamente mercenários. Ora, as profissões e as pessoas dependem ou, antes, dependem sobretudo de valores gratuitos. Procurarei esclarecer: — a vergonha de uma senhora honesta. É um bem material, negociável, a vergonha de uma senhora honesta? Não, evidentemente. E, no entanto, por esse valor gratuito, ela estará disposta a morrer e matar. E assim o seu marido e os seus filhos. Não ocorreria a ninguém aconselhar a uma mulher casada que aceite uma boa oferta, em dinheiro, do primeiro pilantra. Ela estaria disposta a vender as joias, os talheres, as cadeiras, os lençóis, o diabo a quatro. Menos os seus valores incomerciáveis.

Objetará alguém que eu estou misturando alhos com bugalhos. Nem tanto, amigos, nem tanto. Qualquer profissão há de ter um sentido ético que a justifique e valorize. O futebol profissional exige dinheiro, mas não só dinheiro. Ele implica algo mais, ou seja: implica os tais valores gratuitos que conferem a um jogo, a uma pelada uma dimensão especialíssima. Um match representa algo mais que pontapés. Participam da luta dois clubes e todos os seus bens morais, afetivos, líricos, históricos. No Vasco, o mais importante é um valor gratuito: — a tradição.

Nunca um clube espanhol teria a desfaçatez de querer comprar a tradição vascaína. E por quê? Por causa de um puro e simples problema de vergonha. Do mesmo modo, nenhum clube se lembraria de vender um presidente, embora o presidente seja uma figura infinitamente menos essencial que um campeão do mundo. Eis o ponto nevrálgico da questão: — clube não é boteco para vender tudo. Ele possui coisas que não venderia nem por todo o ouro da Terra.

Dirá alguém que um campeão do mundo é um jogador como outro qualquer. Mentira. Por exemplo — o caso de Vavá. O Vasco está vendendo errado Vavá, está vendendo errado o Vavá do ano passado, o pré-Vavá, o Vavá anterior à Taça Jules Rimet. E há um profundo e irredutível abismo entre um e outro Vavás. São duas pessoas que não se conhecem, não se competem, nem se cumprimentam. O Vavá antigo não tinha a autoridade que conquistou, brava e furiosamente, na Suécia. Era desconsiderado pelos companheiros. Agora, não. Agora pode gritar em campo, pode vociferar e até a bola há de correr atrás dele, como uma cadelinha puxa-saco. E parece que o Vasco ainda não percebeu que tem, em casa, um Vavá, sim, mas transfigurado pelo Campeonato do Mundo.

Daí o equívoco grotesco: — o clube de São Januário trata Vavá como se este fosse o antigo, e não o atual Vavá. Eis a verdade: — os nossos clubes ainda não se acostumaram a ser campeões do mundo. Ainda não reajustaram os seus critérios. Mas eis onde eu queria chegar: — um Vavá, ou Orlando, ou Bellini pertence a esta categoria de valores que não se vende. Sua presença no Vasco é uma glória intransmissível. Poderão vociferar: — “E os milhões?” Eu continuarei argumentando que nós só vivemos e só morremos por valores gratuitos.

Há ainda um aspecto, que vem a ser o interesse do jogador. Acho também improcedente o raciocínio que se usa em relação a Vavá. Ninguém vive só de milhões materiais. E os milhões subjetivos? Só a língua da terra vale um milhão bem-contado. Vão tirar de Vavá o seu idioma e quem pagará por isso? As piadas, os palavrões, em outra língua, que graça podem ter? Alguém insistirá no argumento dos milhões. Não importa. Aqui, Vavá está feliz e realizado como um peixinho no seu aquário. Por outro lado, convém aceitar esta verdade recente — o campeão não é apenas um jogador de futebol. É um herói: nenhum clube, nenhum povo tem o direito de vender seus heróis. Nem o herói tem o direito de vender a si mesmo. Amigos, no dia em que deixarmos de prezar os valores gratuitos, vamos cair todos de quatro, todos.

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Os 10 Maiores Cronistas do Brasil

Machado de Assis

Biblioteca Nacional Digital do RJ

O Bruxo de Cosme Velho tem lugar garantido em uma selação dos cronistas brasileiros. Ele molhava a sua pena na tinha da melancolia e na tinta da galhofa. Tido, equivocadamente, como alienado das questões sociais de seu tempo, ele abordou, ironicamente, os descalabros da política, a infâmia da escravidão e as mazelas sociais do século 19, com um olhar oblíquo e dissimulado.

Lima Barreto

Internet/Reprodução

Ele é, em certo sentido, o anti-Machado de Assis, a quem recriminava como “autor para moças prendadas”. Lima Barreto assumia a condição de “mulato, pobre e livre”. Com um estilo direto e coloquial, ele criticou, com observações de senso crítico agudo, as desigualdades sociais do século 19. Exercitava o artigo leve na forma, mas incisivo no conteúdo.

João do Rio

Internet/Reprodução

O nome verdadeiro dele era João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto. Esquadrinhou o Rio de Janeiro, com instinto de repórter, a errância do boêmio e o instinto do repórter. As suas crônicas são carregadas de finas observações e lirismo requintado.

Cecília Meireles

Arquivo/CB

A poesia de Cecília é pura música. E ela imprimiu as qualidades de sua poesia na vasta obra de cronista espalhada pelos jornais. A sua prosa é marcada pelo ritmo, a musicalidade e o lirismo delicado.

Rubem Braga

Rubem Braga/Editora Globo/Reprodrucao

Despretensiosamente, ele promoveu sozinho uma espécie de Semana de Arte Moderna na crônica ao radicalizar na subjetividade e inventar novas maneiras de cultivar o gênero: a carta, a divagação vagamente filosófica, o poema em prosa. Guimarães Rosa dizia que os escritores deviam construir catedrais e não fazer biscoitos, mas se rendeu aos biscoitos finos produzidos por Rubem Braga para os jornais, em dramática contagem regressiva contra o ponteiros dos relógios.

Nelson Rodrigues

Internet/Reprodução

Reconhecido na condição de mais importante autores do teatro brasileiro, Nelson é, também, um dos mais inspirados cronistas tanto no campo dos costumes, da cultura quanto do futebol. Dramaturgo da cabeça aos sapatos, ele promove uma mistura desconcertante de drama e humor contundente. Ele inovou o gênero ao inventar personagens célebres tais como O Idiota da objetividade, O Cretino Fundamental, A Granfina com Narinas de Cadáver, o Sobrenatural de Almeida e o Gravatinha.

Paulo Mendes de Campos

Acervo Lourdes e Wilson FigueireEle tinha pretensões de ser poeta, considerava a crônica um ofício menor, mas acabou se transformando em um dos melhores cronistas brasileiros, com um texto elegante, fluído e lírico.

Clarice Linspector

Coleção Plínio Doyle/CB/Reprodução/D.A Press

Ao comentar as crônicas de Clarice Lispector, Rubem Braga dizia que ela “só era boa em livro”. Mas o mestre do gênero se equivocou. Não percebeu que ela inventou uma espécie de subgênero dentro do gênero: a crônica metafísica. A partir de situações triviais, Clarice pode lançar o leitor a grandes voos de lirismo. Como ela mesma disse, a beleza é o nosso elo com o infinito.

Carlos Drummond de Andrade

Arquivo Estado de Minas -

O mais importante poeta brasileiro também merece figurar na seleção dos cronistas. A sua produção é vasta e desigual. Drummond guardava o essencial para a poesia, mas escreveu belíssimas crônicas, em um estilo, ao mesmo tempo, moderno e clássico, quase machadiano. Inovou no gênero ao fazer crônicas em versos, reunidas na série Versiprosa.

Vinicius de Moraes

VM Cultural/Divulgação

Como tantos outros nomes de primeira linha do modernismo brasileiro, Vinicius de Moraes escreveu crônicas para garantir a sobrevivência. Sem chegar a ser um cronista original, ele desfilou a condição de craque com um estilo impecável, combinando leveza , senso de humor e lirismo.

FONTE: http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2014/10/08/interna_diversao_arte,451270/confira-lista-com-10-importantes-cronistas-brasileiros.shtml

Duas Flores – Por Castro Alves

São duas flores unidas
São duas rosas nascidasz
Talvez do mesmo arrebol,
Vivendo,no mesmo galho,
Da mesma gota de orvalho,
Do mesmo raio de sol.

Unidas, bem como as penas
das duas asas pequenas
De um passarinho do céu…
Como um casal de rolinhas,
Como a tribo de andorinhas
Da tarde no frouxo véu.
Unidas, bem como os prantos,
Que em parelha descem tantos
Das profundezas do olhar…
Como o suspiro e o desgosto,
Como as covinhas do rosto,
Como as estrelas do mar.

Unidas… Ai quem pudera
Numa eterna primavera
Viver, qual vive esta flor.
Juntar as rosas da vida
Na rama verde e florida,
Na verde rama do amor!

Castro Alves

castro alves

Frases de Guimarães de Rosa

Deus nos dá pessoas e coisas, para aprendermos a alegria… Depois, retoma coisas e pessoas para ver se já somos capazes da alegria sozinhos… Essa… a alegria que ele quer

Tudo o que muda a vida vem quieto no escuro, sem preparos de avisar

O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem..

Rezar muito e ter fé. Porque as coisas estão todas amarradinhas em Deus.

Porque eu só preciso de pés livres, de mãos dadas, e de olhos bem abertos.

Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende.

Esperar é reconhecer-se incompleto.

Para ódio e amor que dói, amanhã não é consolo.

O medo é a extrema ignorância em momento muito agudo.

Quem sabe direito o que uma pessoa é?Antes sendo:julgamento é sempre defeituoso,porque o que a gente julga é o passado.

Ah, acho que não queria mesmo nada, de tanto que eu queria só tudo. Uma coisa, a coisa, esta coisa: eu somente queria era – ficar sendo!

O que não é Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há.Mas o demônio não precisa de existir para haver.

Sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o lugar. Viver é muito perigoso…

1. Sou figura reduzida e de pouco aparecimento. 2. Quase que nada sei, mas desconfio de muita coisa. 3. Quem rala no aspro não fantaseia.

Fino, estranho, inacabado, é sempre o destino da gente

É preciso sofrer depois de ter sofrido, e amar, e mais amar, depois de ter amado.

Eu sou é eu mesmo. Diverjo de todo o mundo.… Eu quase que nada não sei, mas desconfio de muita coisa.

Saudade é ser, depois de ter.

O rio não quer chegar a lugar algum, só quer ser mais profundo

Quando nada acontece há um grande milagre acontecendo que não estamos vendo.

Viver para odiar uma pessoa é o mesmo que passar uma vida inteira dedicado à ela

Quem muito se evita, se convive

O Ciúme – Por Bocage

Entre as tartáreas forjas, sempre acesas,
Jaz aos pés do tremendo, estígio nume,
O carrancudo, o rábido Ciúme,
Ensanguentadas as corruptas presas.

Traçando o plano de cruéis empresas,
Fervendo em ondas de sulfúreo lume,
Vibra das fauces o letal cardume
De hórridos males, de hórridas tristezas.

Pelas terríveis Fúrias instigado,
Lá sai do Inferno, e para mim se avança
O negro monstro, de áspides toucado.

Olhos em brasa de revés me lança;
Oh dor! Oh raiva! Oh morte!… Ei-lo a meu lado
Ferrando as garras na vipérea trança.

Bocage

Roda Vida – Por Chico Buarque de Holanda

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá
Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração

A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a roseira pra lá
Roda mundo (etc.)

A roda da saia, a mulata
Não quer mais rodar, não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou
A gente toma a iniciativa
Viola na rua, a cantar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a viola pra lá
Roda mundo (etc.)

O samba, a viola, a roseira
Um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a saudade pra lá
Roda mundo (etc.)

Chico Buarque de Holanda