Paisagens – Por Velho Marujo

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Mês de maio. Inverno…

A gélida paisagem deveras parece tão somente ilustrar. Pálida, inerte, fosca. Estampada em cinza, preto, moscas. Entre trancos, bancos, barrancos, barracos. Parece não mais afrontar ou quiçá confrontar, não! São canecas, cachorros e cobertores, sem talheres, um bocado de homens, mulheres, idosos, jovens, crianças… Odores! E são tantas dores! Mazelas compartilhadas em um suicídio coletivo de sonhos, vidas e cores… Favelas!

São hoje, meros rumores de um pretérito imperfeito, moradores do abstrato mundo de concreto escoltados por vigas e pontes. Rumores! Personagens coadjuvantes de um cinema mudo, sem fala, sem malas, apenas um edredom de estrelas e o céu como teto. Surdos! Ah! Quem dera Chaplin ainda se contasse dentre os mortais, talvez aos tais dedicaria sua obra prima, o tal vagabundo… Sujismundos! Uma tragédia épica que nem James Cameron reproduziria, nem Dan Brown jamais ousaria. A epopéia de heróis e heroínas impopulares e suas histórias fadadas ao olvidamento, sem super poderes, saberes ou confrarias, a saga da tal alforria, esta nem Robert Longdon desvendaria.

É… Isabel! Eis que em seu tratado e assinatura, em nada contribuíste para a mudança da estrutura, dantes serviçais, negros, negras, mulatos, mulatas… eram pés, mãos, cacau, inchadas… eram correntes, calos, ouro, prata… agora atuais desprezados, esculturas, estátuas sociais, mas não ilustres como “Os Bandeirantes” ou Dom Pedro em sua marcha pela fraudulenta proclamação, não! São a contradição da “Independencia ou morte”, são paisagens do caos, sentenciados ao “Inferno de Dante”, talvez… Alighieri realmente tenha sido mais profeta do que poeta.

Afinal, na terra onde Jules Rimet furtou os olhares de milhões, e milhares sucumbem diante de um lastimável menoscabo inflamado pela escassez de afabilidade, não é abalo saber que até mesmo o calor do Hades, não mais aquente almas e corações.

É… Talvez, o poeta esteja com plena razão… Talvez, aqui… Ninguém vá para o céu!

O Faxineiro

vassouraO macacão azul anil parecia falar… O olhar fitado no chão, a voz tremula e cansada a resmungar, mãos calejadas, pele escura, preta… A cabeça raspada não deixava transparecer os fios brancos, os pés rachados (imagino eu) calçados pelos velhos sapatos pretos, os mesmos que devem o acompanhar a tantos dias, amigos inconfidentes, seu uniforme era seu padre e o banheiro da faculdade seu confessionário.

Dia após dia o tempo está estagnado e a pressa parece não atingi-lo, seu mundo anda em vias contrárias, os ponteiros de seu relógio estão tão parados quanto os de Salvador Dali. Seus anos se vão com a mesma velocidade de seu trabalho, sua vida está limitada a aquelas paredes de azulejos brancos, seus sonhos estão reclusos e destinados a morrerem no 12° andar.

São 20h55min e ali está o homem, sentado sobre a pia de mármore cinza, debruçado por sob os ombros e proferindo palavras em tom quase inaudível, como quem está a murmurar, a declamar um discurso intimo e pessoal que se refere apenas a ele e que quase ninguém está ou estará disposto a ouvir. O cheiro de urina, misturado com os perfumes caros da classe média dão o clima de desigualdade social com um toque de monarquia. Acordar cedo e dormir tarde, o trem lotado que mais lembra os grandes cargueiros, o ser humano tratado como gado, submetido a se locomover como bichos, o navio negreiro do povo trabalhador. Tudo isso e ainda um salário de fome, que mal dá para pagar as contas e ele conta quanto custa para sobreviver nesse mundo cão. 

– Boa noite! (alguém diz)

– Boa…

Responde o homem com voz assustada, não por medo, até porque quem vive a beira da exclusão não teme nada, mas talvez por mal se lembrar da última vez que alguém o cumprimentara. Os dias passam e a vida daquele homem se confunde com a paisagem do ambiente. Tornou-se como um objeto de decoração, uma estátua, parte ilustrativa da sociedade, uma história em quadrinhos onde desenho e narrador se confundem com seus personagens.

– Papai!

Diz o filho daquele homem, irradiante por vê seu pai retornar ao lar. Ele (o homem) abraça seu filho, beija sua esposa, vive aquele momento como se fosse o último, pois amanhã o dia voltará a despontar. Coloca na mesa a mistura que comprou com dinheiro suado, feijão, arroz, ovo e bife, e dar-se por satisfeito e agradece a Deus por hoje ter além do ovo, o bife.

Toma um banho (ou melhor, uma “ducha”), e após lavar o corpo e a alma, deita-se em sua cama, reza o Pai Nosso, e pede a Deus que o dê forças para que no dia que se espera, possa cumprir novamente seu papel de chefe de família, de homem, de pai.

Velho Marujo