Eles Não Circuncidaram Dandara! – Por Velho Marujo

Marcha-5África, dia 30, mês de maio, ano 2015.

Nairóbi, capital do Quênia, país da África Oriental, com população de aproximadamente 45 milhões de habitantes. Economicamente estruturada em exportação agricultura para países europeus. Politicamente sob regime presidencialista. Maioritariamente seguidora do Cristianismo sendo esta crença partilhada por 82% dos quenianos, (47% de protestantes, 23% de católicos romanos e 12% praticantes de outras religiões cristãs), 11% da população declara-se como muçulmana, outros 10% seguem crenças indígenas/tribais e 2% têm outras religiões.

Em termos organizacionais, aparentemente em processo de evolução tanto industrial quanto cultural, contudo ainda enraizado com praticas e costumes que, evidenciam a superficial democracia política, e uma tradição tribalista e desumana. Pois, é contextualizado com este quadro que, mulheres Quenianas, devidamente caracterizadas, com seus turbantes, panos, e vestidos coloridos, costumazes da cultura africana, marcham como em procissão, com faixas e dizeres de protesto, contra uma antiga tradição que perpetua-se por décadas, em mais de 28 países africanos. A Mutilação Genital Feminina. Estamos a divagar sobre um tema exaustivamente debatido, mas que ainda não demonstra avanços significativos.

Na África, conforme visões culturais e religiosas, toda menina a partir dos 6 anos, deve ser circuncidada. Não pretendo aprofundar-me tecnicamente na questão da circuncisão, basta-nos saber que este é um processo cirúrgico de excisão do clitóris ou do grande e pequeno lábios da vagina. Um procedimento doloroso e perigoso, dado que este é realizado, em mais de 90% dos casos, em locais inapropriados, sem anestesia ou aparelhagem adequada. Em suma, um ato tribal que, não raro flutua próximo a barbárie, provocando muitas vezes graves consequências para a mulher como sangramentos, anemia, inflamações, há casos de mães de primeira viagem em que, se é necessário abrir-se a vagina durante o parto, além de causarem problemas durante o ato sexual. Muitas aceitam tal desrespeito, pela imposição social, familiar, muitas vezes das mulheres mais velhas que, impõe a tradição para as jovens e crianças, ou simplesmente por aceitação, pois muitos homens negam-se casar com mulheres incircuncidadas.

ELES NÃO CIRCUNCIDARAM DANDARA!

– “Caro, Velho Marujo, entendemos toda problemática e a gravidade da situação destas mulheres africanas, mas o que caguas d’águas, tem haver com o tema o texto?“.

Caros, amigos leitores. Dandara, ou melhor, a Princesa Dandara, foi uma guerreira negra, viveu no Brasil no período da escravidão, casada com o grande guerreiro Zumbi, sendo que juntos fundam o Quilombo dos Palmares, marco na história brasileira na luta contra a opressão dos colonizadores europeus. Deste relacionamento nascem três filhos, e após dezenas de batalhas, após ser capturada, Dandara suicida-se, jogando-se de uma pedreira, preferindo a morte do que retornar para a senzala.

Ao ler esta noticia, divulgada pelo site: Por Dentro da África. Notei a semelhança na luta destas mulheres por sua liberdade e feminilidade, com a história que relatei acima. Ambas, lutam por direitos básicos do ser humano, o livre-arbítrio, a opção de escolha, de ir e vir, de sonhar, viver, desfrutar dos prazeres da vida sem amarras ou correntes nos calcanhares. Sejam estas físicas ou psicológicas. O fato, é que causa repugnância pensarmos que em pleno século 21, ano de 2015, ainda nos deparemos com atos tribais, irracionais e enraizados por um conceito brutal e inconsequente. E isto baseado em que? Religião e cultura. Não, a razão não é de longe religiosa ou cultural, é um problema social, é uma questão de princípios, ou se me permitirem, de moral. O que vemos é a imposição de uma tradição que, deveras esta ultrapassada, isto é se podemos dizer que, em algum determinado período da história poderíamos considera-la atual.

Dandara, ao deparar-se com a possibilidade de vivenciar a escravidão novamente, decide morrer, do que entregar-se ao regime escravocrata. Estas mulheres, hoje, revivem Dandara, em suas marchas por dignidade e aceitação. Mais uma vez, assim como fez sua ancestral, elas decidem “jogar-se na pedreira” do embate social e enfrentar a discriminação e a tradição, do que viverem caladas e oprimidas na “senzala” de seus lares. A todas essas guerreiras, essas negras, mulheres, filhas de Dandara, meus votos para que o sol da liberdade brilhe mais forte amanhã. Por um mundo melhor. Que Deus nos ouça!

Não! Eles não circuncidaram Dandara!

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