Como os Ponteiros de Salvador Dalí – Por Velho Marujo

Índice

Que horas são? Quantas horas? Tanto faz…

Quanta dor cabe no peito?

Quanto rancor ou dissabor, desamor, quanto amor um amargor cala? Palavras, falas engasgadas não ditas, malas jamais desfeitas, louças na pia, poeira sobre a mesa, sujeira, solidão, imensidão, prisão… É vazio, é incerteza, é ausência de si mesmo. Não mais que um querer a esmo. Apenas outro desfechar sem começo onde não há erro em aventurar-se, desde que saiba o peso do preço!

No quarto, no chão, o velho colchão, a garrafa de Smirnoff, assistindo-se nos playoffs da vida, sem deslumbrar saída, em off… Roupas, trapos, farpas, bitucas de cigarro, um maço de Eight, de “Corótinho” a Orloff, sem amparo, não tão raro, mais um trago, fotos, retratos, parede, sede por afago, móveis quebrados, o espelho, são pratos, copos, cama…

Um porre de vinho, Chapinha, São Tomé, Chalise, um dos mais baratos, uma fuga. Na sala, a televisão, o banco de madeira, o tapete colorido, o antigo rak branco e o Gradiente anos 90, bola mais um fino, estica mais um pino, pensa: – “Quem sabe música para “desbaratinar”, sei lá!”. Brown, Wonder, Armstrong, Arlindo Cruz, Fundo de Quintal… Mas, sem cassete, o toca discos parado, sem vinil, tanto faz, vitrola quebrada, janela quebrada, o silêncio na quebrada e a calada rua. Toma mais uma dose. Efeito? Psicológico, narcótico, overdose… Outra amarga dose de teor alcoólico, daquelas que “apaga” a depressão, mas larga no mangue, como caranguejo, no barro. Baseado em fatos, acende, prende… Acalma! Olha para o relógio. Mas, os ponteiros em slowmotion estão parados como os de Salvador Dalí.

Frio, cão no canil! É quando implora por um olhar de amparo, chora lágrimas de vinho entre cigarros e bitucas, é quando a grana vai e se esvai na insana noite, é quando se esvai e vai a dama da sua cama.

E quantos? Quantos findaram-se assim? Amy Winehouse, Chorão, Chaplin…

…A vida nos playoffs aos 10 segundos do fim!

Dance

Viva a vida com dança, baile aos pés daquele que lhe formou, dance… Em meio às guerras e lastimas de um mundo sombrio, ilumine-o com tua dança, ilumina-te a si mesmo. Dançar, assim como cantar, são verdadeiros luminares da alma, pessoas que são capazes de ainda dançarem neste planeta em constante decadência, são capazes de provocar o inestimável, alegrar corações, encantar olhares antes perdidos.

Encontra-te a si mesmo.

A cada movimento, a cada esticar de braços, a cada salto… Leve a vida na leveza de teus passos, e passeie por ela… Tudo pode ser mais vivo e belo se as pessoas souberem dançar e cantar em meio à guerra. Quão linda é a vida daqueles que dançam, cantam e que vivem o segundo, os minutos, as horas, pois os dias já não cabem mais neste contexto, o futuro é um mero esperar, é o bocejar de uma criança, longo, longo… Parece eterno para quem de longe admira.

Dançar, espreguiçar-se, estique-se…

Teus ossos não durarão mais um milênio, teu corpo irá se findar antes da consumação dos séculos, tua vida ficará mais lenta, teu andar ficará mais lento e os dentes cada vez mais amarelos, por isso, dance… Dance em tua mocidade, na tua adulta meninice, por mais rugas que o tempo tenha lhe premiado, a criança que habita em ti jamais envelhecerá, a alma é a eterna solidez da juventude, a vida vale este momento e este momento vale uma vida.

Sei que dirás estar velho demais para se divertir tanto assim, que nada, a maior bobeira dos homens foi ter inventado está “pratica” vida moderna, onde temos sempre a sensação de estarmos sendo vigiados, e que olhares pecaminosos nos julgarão pelos feitos impensados. Besteira. Quer saber, deixe de ser bobo, arraste os móveis da sala e dance, dance, sozinho ou acompanhado, como se está fosse tua última valsa, teu último samba, o último soul… Convide os vizinhos, faça uma festa, abrace teu amor, pois do outro do outro lado para onde todos irão, talvez não haja mais nem música, nem dança. Apenas o silêncio…

Dance!

Velho Marujo

Daí-me convicções!

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Sobreveio-me de súbito assalto, e confesso estar desconexo acerca de minhas próprias decisões. Minha mente esta inquieta por respostas, meu espírito anseia por certezas, luz e convicções.

Por dias tenho apreciado o discurso dos tais convictos, e admito ser réu de um sentimento de inveja, “inveja santa”, se é que tal termo exista. Admiro esses cujas palavras parecem se eternizar, cuja conduta não transparece sombras de duvidas, discrepâncias, inconsistência. Estes cujas interrogações parecem inexistir, inabaláveis, seus conceitos são pedras de esquina, pedras angulares.

Oh! Quão bom seria saber o porquê de tudo o que me aflige. Quão imensurável seria apegar-me a alguma verdade, seja ela qual fosse apenas, pelo prazer espiritual e humano de ter algo em que acreditar.

– O que ontem acreditava… Não mais acredito. E o que hoje não acredito, amanhã será minha convicção.

Não. Quero respostas. Quero um ideal, um sonho, um motivo, uma explicação. Um caminho a seguir. Qual seguir?

Dirão: “Tantos outros antes de ti, morreram pelas mesmas respostas, quem és tu para entender o fundamento destes mistérios?”.

Direi então: – Ainda que o corpo desfaleça o espírito, contudo, se manterá inquieto, até que pelo menos uma única verdade possa ser compreendida. Até que pelo menos uma única convicção possa ser vivida.

Daí-me convicções. Por favor!

Velho Marujo

Palhaços também choram

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Apagaram-se as luzes do picadeiro. O palco que dantes aspirava e inspirava risos de súbito modo jaz ao silêncio da solidão.

 A grande tenda criada para doar alegria, se sente fria ao cair da noite, ao findar de outro dia, quando aplausos, sensações, humor e crianças dormem, quando o artista se vê romper a madruga sozinho, no obscuro.

 O raiar do sol traz apenas outra dor, a de ter que ser o personagem, o mágico, a “felicidade”. A dor de ter que nascer a cada novo espetáculo e de se vê morrer após o fim deste. Após as cortinas encerrarem a alegre e solitária dramaturgia.

E é no exílio… Perdoe-me! Melhor, no camarote, que as manchas surgem, o borrão, a tinta, a máscara, é quando o artista lava o rosto nas próprias lágrimas e o espelho parece ofender, dizer, falar…

 Ofender, dizer, falar. Tudo o que artista deseja é tal liberdade, isso mesmo, ele quer brigar, xingar, gritar, gritar… Ele quer se ver sozinho, mas casado de estar sozinho do mundo, já não mais deseja a solidão, ele quer apenas estar sozinho de si mesmo, liberta-se de seu personagem, desprender-se, esvaziar-se, gritar, gritar…

 Ah! E como deve ser traumático sorrir, quando se precisa chorar, divertir, quando se quer prantear, abraçar, quando não mais se sabe o prazer de amar.

 Ah…

 Mas amanhã as luzes do picadeiro acenderão novamente, todos virão, de todos os quantos, assistirão ao espetáculo do artista. Então, cabe a ele vestir seu terno colorido, sua peruca colorida e pintar o rosto de branco, vermelho, palhaço… Fingir que essa noite foi um surto, um acaso, uma ilusão, e que não sente a dor de ser um personagem, de ter que ao invés de viver a vida, interpretar.

Velho Marujo

Nos braços do Pai!

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Pai!

 

Já perdi as contas de quantas destas escrevi, quantos foram os versos, as linhas, as folhas riscadas, quantos foram os pedidos de perdão, quantos foram aceitos em vão.

 

Talvez o dom mais precioso que me destes, não expresse a prece que tento a lhe trazer. Pulando as delongas. Pai! Já não sinto mais prazer, sinceramente tudo está tão frio aqui, me sinto tão sozinho aqui, e parece que todos os ouvidos estão surdos aos meus lamentos, os poucos que me escutam de longe não entendem. Sinto saudades de quando me entendia, me ouvia, e com voz tão doce dizia, “Vem como estás”.

 

Vem.

 

A muito sinto saudades disto, desta tal voz que clama vem, que grita em vão, que sente vontade de mim, saudades de mim, que me tem como filho, quando o mundo me tem como um bastardo, rebelde, sem causa.

 

Sinto saudades dos teus abraços, de saber que por mais que a mãe que amamenta abandone seu filho, por ventura, tu jamais abandonarias um filho teu.

 

Confesso estar deformado. Talvez tu nem mais me reconheças, não tenho mais aquele rostinho que olhava para o céu, como criança que era, acreditava na terra que emana leite, mel, sonhava em morar no céu, que sonhava ter nascido para mudar o mundo, e se não o mundo, uma boa parte dele.

 

Pai!

 

Permita-me apenas por está data, dizer-te – Papai! Meu Papai! Aba Pai!

 

Não serei hipócrita ao ponto de cobrar-te aceitação, mas sou verme o bastante para te clamar perdão.

 

Já fui filho, hoje, me sinto réu, em qual me enxergas? Não sei, mas sei que um pai, jamais esquecera do nascimento de seu filho, tu jamais esqueceras do dia em que no colo, em teus braços, disse “Este é meu filho amado, de quem tanto me comprazo”.

 

Talvez ninguém mais acredite. Na verdade quem acreditaria?  A quem diga que quando o homem sentencia, tu mostras até que ponto a tua misericórdia pode alcançar.

 

Será que existe esperança para a árvore cortada? Será que poderia um pai aceitar um filho que disse não ao seu amor? Será que existe amor após a rejeição?

 

Seja qual for a resposta de uma coisa estarei certo, de todos os momentos da minha vida, os mais felizes, indiscutivelmente, eu passei com você. E se acaso vier a falecer, fica registrado nessas poucas, a alma de um velho marujo, que cansou de navegar por mares errantes, mas que antes de partir, deixou em cartas destinadas a ninguém, tudo aquilo que um dia alguém jamais imaginou sentir, e que apesar da distancia ainda se sente como aquela criança, nos braços do pai.

Velho Marujo

A vida se renova?

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Talvez a vida se renove

Talvez o frio dessa noite

Seja o calor do dia de amanhã.

 

Talvez tudo que um dia sonhei

Seja apenas fábulas

De uma literatura vã.

 

A vida se renova.

 

Mas por que me sinto tão velho?

 

Por que tudo parece antigo?

 

Meus sonhos são os mesmos

De 10 anos atrás

Meus erros são os mesmos

Da minha adolescência

A única coisa que mudou

Foi a inocência.

Que já não tenho mais.

 

Velho Marujo

Vitórias, Aplausos e Glórias

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A vida segue, a gente cai
a gente se ergue
por mais lento que sejam os lags
a vida sempre prossegue.

E segue, no ritmo
que a gente dita,
a vida sempre se renova
assim como a nossa escrita.

E a gente escreve,
lagrimas, choros e histórias,
a gente crava no papel
vitórias, aplausos e glórias.

E nesse sobe e desce da vida
a gente fica como quem sonha,
um dia você esta na descida,
outro na subida, e sonha…

Abre os olhos
e mal acredita no que vê
não há derrota que derrote
quem nasce para vencer.

E os tempos passados
mostram a veracidade do presente,
tudo o que foi conquistado
sem manhas de imponente.

Deus levanta príncipes
do monturo, do fundo,
é reservado aos humildes
os segredos mais profundos.

E a gente esqueça das vaias,
da ausência de novas histórias,
hoje o dia amanheceu em meio
a vitórias, aplausos e glórias.

 

.De Almeida .Guilherme .will rimOlogia